Grada Kilomba trabalha com os horrores para os quais nós não temos uma linguagem

Grada Kilomba trabalha com os horrores para os quais nós não temos uma linguagem

Todas as noites, Grada Kilomba toca piano com a sua filha mais nova. Enquanto Grada faz a base, a filha improvisa por cima. O som desse momento íntimo e afetuoso foi colocado na videoinstalação Opera to a Black Venus (2024), no Inhotim

Desde abril de 2024, a artista está com a obra O Barco em cartaz na Galeria Galpão da instituição mineira. Nela, 134 blocos de madeira queimada estão numa área de mais de 220 . A disposição dos blocos faz uma alusão às embarcações que transportaram pessoas escravizadas durante séculos de tráfico transatlântico. Entre os blocos, os visitantes percorrem os versos do poema homônimo à obra, gravados em tinta a óleo dourada. 

Opera to a Black Venus é o terceiro e último ato de ativação da mostra, que teve o primeiro em 2024 e o segundo em 2025. Com a nova incorporação, os visitantes, ao caminharem pelo barco, terminam o percurso recepcionados pela videoinstalação. Nela, um grupo de artistas que inclui bailarinos, percussionistas e cantores – entre sopranos, contraltos e tenores – está em um cenário de solo árido, com rochas ao fundo, como se o oceano tivesse secado. O grupo se move, canta e respira de maneira fluida e lenta, acompanhando o movimento das águas que não estão mais lá. 

“O que o fundo do oceano nos diria amanhã, se hoje fosse esvaziado de água?”, é o questionamento que Grada levanta no trabalho. “Eu imagino um cenário muito futurístico em que o mar desaparece, como já desapareceu aqui, e ficamos apenas com as rochas e com o chão. Esse chão é um arquivo da existência humana, porque os oceanos têm vivenciado as políticas mais violentas da humanidade”, explica a artista em entrevista para a arte!brasileiros. Grada aponta para as travessias da escravidão, mas também para a contemporaneidade, em que corpos precisam atravessar o oceano para fugir de guerras e do genocídio. 

Para trazer este tema “da forma mais poética possível”, em suas palavras, foi importante reduzir radicalmente os muitos dias de filmagem, assim como usar o som do piano improvisado entre mãe e filha: “Acho muito importante trazer esse elemento nestes momentos em que nós estamos a viver e vivenciar imagens horrendas de crianças a lidar com estas políticas grotescas”. 

A lógica da improvisação também marca a estrutura do trabalho. Grada associa esse procedimento à tradição do jazz, em que um conjunto de corpos e instrumentos respondem uns aos outros em tempo real.

Beleza e horror

“Uma das mais importantes tarefas de uma artista é trabalhar com os horrores com os quais e para os quais nós não temos uma linguagem”, afirma. Para ela, o grande desafio do artista está em falar sobre essas questões sem desumanizar e sem repetir a violência. Por isso, ela explica, a poesia e a abstração lhe são instrumentos caros. 

Assim como o horror, a beleza está presente em Opera to a Black Venus: “Esta parte da beleza é importante para todos os movimentos periféricos, como é que nós vivemos na dificuldade ou na precariedade, mas criamos o belo, criamos a alegria, criamos a felicidade”, reflete. 

Desde o princípio da colaboração entre a artista e o Inhotim, uma preocupação foi a de manter a obra viva e em constante diálogo com a comunidade. Se no primeiro ato O Barco foi ativado com uma performance com artistas majoritariamente da periferia de Lisboa, no segundo, a abertura uniu os artistas estrangeiros aos artistas mineiros, da comunidade local. Para isso, foi feita uma pesquisa que envolveu terreiros, quilombos e a periferia dos arredores de Brumadinho.

No terceiro ato, por se tratar de um vídeo, espera-se que um público muito maior do que o que assistiu às ativações dos dois primeiros tenha contato com a performance. 

“Isso faz parte do meu conceito de trabalho, que tem essa dimensão de responsabilidade, de justiça. Como é que uma obra pode abarcar também uma comunidade, não só uma artista, não ficar centrado e ancorado numa pessoa só – isso é extremamente masculino e extremamente dominante, mas como mulher, artista da diáspora, eu tenho uma metodologia de trabalho que envolve não só o meu corpo, mas muitos outros corpos e muitas outras pessoas”, conclui.

Inhotim 20 anos

A ativação de O Barco faz parte da celebração dos 20 anos do Instituto Inhotim. Ao longo de 2026, a programação especial articula arte contemporânea, natureza, educação e território. Confira o calendário de exposições que serão inauguradas:

07/02 – Inaugurações com Grada Kilomba (O Barco – Ato III) e Paulo Nazareth (Esconjuro – Verão)

25/04 – Inaugurações com Dalton Paula, Davi de Jesus do Nascimento e Lais Myrrha

12/09 – Abertura da exposição Inhotim 20 anos e Anoitecer Inhotim

17/10 – Inaugurações com Cildo Meireles e Janet Cardiff & George Bures Miller

18/10 – Festa de Aniversário do Inhotim (programação gratuita)

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