Beatriz Milhazes ilumina Salvador com “100 Sóis”

Beatriz Milhazes ilumina Salvador com “100 Sóis”
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Com presença consolidada em importantes instituições e coleções internacionais, Beatriz Milhazes é hoje uma das artistas brasileiras de maior projeção global. A exposição 100 Sóis, em cartaz em Salvador, oferece um recorte de três décadas de sua trajetória e reafirma a potência da pintura como linguagem contemporânea.


Estar diante de uma obra de Beatriz Milhazes é sempre uma experiência singular. É como assistir a uma aula silenciosa sobre composição, ritmo e construção visual. Mesmo o olhar menos treinado percebe imediatamente a potência visual de suas pinturas. No entanto, ao dedicar mais tempo à contemplação, o que inicialmente pode parecer um excesso ou um caos de cores começa a revelar uma estrutura rigorosamente equilibrada, como engrenagens que operam com precisão dentro de um mecanismo complexo.

Obra de Beatriz Milhazes
Obra de Beatriz Milhazes que faz parte da exposição ‘100 Sóis’ — Foto: Pepe Schettino/ Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (Divulgação)

Imagine, então, esse efeito ampliado: uma grande sala de museu, ocupada por dezenas de obras que dialogam entre si, justapostas, tensionadas, em contraponto. É nesse conjunto que o padrão sofisticado se manifesta plenamente. O aparente caos inicial transforma-se em linguagem organizada, em sistema visual coeso, fruto de décadas de elaboração e refinamento.

É essa experiência ampliada que a artista oferece ao público em Salvador na exposição 100 Sóis, em cartaz no Museu de Arte da Bahia. Em diálogo com o curador Tiago Mesquita, Milhazes concebeu uma mostra que reúne marcos de sua produção ao longo de três décadas. A exposição é a evidência de uma carreira dedicada à arte, que não perde o frescor nem a intensidade.

Ao lado de pinturas e colagens emblemáticas, 100 Sóis apresenta uma instalação concebida especialmente para o espaço do museu — um edifício neocolonial da década de 1920. Nessa intervenção, a artista ocupa a arquitetura com luz e cor por meio de formas translúcidas aplicadas às janelas.

Exposição 100 Sóis
Exposição ‘100 Sóis’ — Foto: Eduardo Ortega/Fortes D’Aloia & Gabriel (Divulgação)

A trajetória de Beatriz Milhazes

Beatriz Milhazes (Rio de Janeiro, 1960) é uma das artistas brasileiras de maior projeção internacional nas últimas décadas. Formada na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, integrou a chamada “Geração 80”, movimento que marcou o renovado interesse pela pintura no Brasil.

No Parque Lage, foi aluna de Charles Watson, influência que a própria artista reconhece como determinante em sua formação. Inserida em um ambiente de intensa experimentação e debate, Milhazes consolidou ali as bases de uma linguagem própria e consistente, articulando referências do modernismo brasileiro a elementos da cultura popular.

A partir dos anos 1990, Beatriz Milhazes desenvolveu e refinou a técnica do monotransfer, procedimento que se tornaria uma marca distintiva de sua produção. Em vez de aplicar a tinta diretamente sobre a tela, a artista pinta formas e padrões com tinta acrílica sobre uma superfície plástica lisa. Após a secagem, essas formas são cuidadosamente destacadas e transferidas para a tela.

Beatriz Milhazes no Museu de Arte da Bahia
Beatriz Milhazes. Foto: Leandro Tumenas/Secretaria de Cultura do Estado da Bahia (Divulgação)

O processo combina pintura, colagem e monotipia, permitindo que cada elemento preserve contornos definidos e cores saturadas. Ao mesmo tempo, a sobreposição dessas camadas constrói uma composição de grande complexidade estrutural.

A obra de Beatriz Milhazes integra importantes coleções institucionais, como o Museum of Modern Art (MoMA) e a Tate Modern, além de ter sido apresentada em exposições de relevância global, como a Bienal de Veneza. No Brasil, a artista realizou mostras de grande repercussão em instituições como a Pinacoteca do Estado de São Paulo e o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, reforçando sua posição de destaque tanto no cenário nacional quanto internacional.

A escolha por Salvador e o Museu de Arte da Bahia

Salvador vive um momento muito legal para as artes plásticas e para a cultura de uma forma geral.

Tiago Mesquita, curador

Em entrevista à Artsoul, o curador Tiago Mesquita destacou que a realização da mostra em Salvador não foi circunstancial, mas sim resultado de uma convergência simbólica e cultural:

“A Beatriz nunca tinha feito uma individual em Salvador e ela gostaria muito. Ela tem uma relação familiar com Salvador do lado do pai: O nome Milhazes vem da cidade de Cachoeira, no Recôncavo Baiano. E Salvador vive um momento muito legal para as artes plásticas e para a cultura de uma forma geral. A gente queria participar desse debate também, desse momento interessante e trazer o melhor do trabalho, com pinturas importantes e históricas da trajetória da Beatriz, além de outras linguagens que contribuem para essa circulação de ideias.”

A escolha pelo Museu de Arte da Bahia reforça esse gesto. Em diálogo com a arquitetura neocolonial do edifício e com a luz própria da cidade, a intervenção nas janelas do espaço expositivo estabelece uma relação direta com o entorno. Como afirma Tiago Mesquita, trata-se de “uma relação mais direta e evidente com a cidade, uma relação tanto de dentro pra fora — quando o sol e a atmosfera colorem o ambiente — quanto de fora pra dentro, quando as cores da exposição chegam na cidade.”

Exposição 100 Sóis
Exposição ‘100 Sóis’ — Foto: Eduardo Ortega/Fortes D’Aloia & Gabriel (Divulgação)

Serviço

Beatriz Milhazes: 100 Sóis

Museu de Arte da Bahia – MAB | Av. Sete de Setembro, 2340 – Salvador

Horário de visitação: terça a domingo, das 10h às 18h

Período expositivo: 29 de janeiro a 26 de abril de 2026

Entrada gratuita

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