Tem coisa melhor do que isso? Só dois disso

Tem coisa melhor do que isso? Só dois disso

Roxinha Lisboa tinha 59 anos quando começou a desenhar. Até então, havia trabalhado na roça, “quebrado brita” e varrido as ruas do povoado onde nasceu, Lagoa de Pedra, na cidade de Pão de Açúcar, no sertão alagoano.

A artista nasceu em 1953 e, desde os 18 anos, é casada com Domingos, a quem chama de Binga. Quando os sete filhos já estavam crescidos, passou a desenhar junto com o marido. Criavam por diversão e também por saudade da filha Deborah, que era a desenhista da família e havia saído de casa para trabalhar em outra região. Desenhar divertia o casal, cujo senso de humor afiado se reflete nas obras de ambos.

A casa de Roxinha se destaca na rua. Não pela construção, nem pelo tamanho, mas pelas pinturas na fachada. Encontrá-la não é difícil: o endereço está na descrição da sua conta no Instagram. Contrariando a minha própria ideia de educação, não avisei que iria. Até tentei, enviei uma mensagem perguntando se ela estaria em casa, mas não fui respondida a tempo. Contei com a sorte. 

Casa de Roxinha, em Pão de Açúcar (AL). Foto: Luiza Lorenzetti

Ao contrário do que se imagina, a casa de Roxinha não fica na Ilha do Ferro, o povoado repleto de artesãos às margens do Rio São Francisco. Mas também não fica muito longe dali. Cerca de 45 minutos de carro separam os artistas da Ilha de dona Roxinha. O tempo de estacionar o carro, descer e fotografar a casa foi suficiente para Domingos perceber que tinha visita. Ele abriu a porta com um sorriso que se alargou quando perguntei se ele era o Binga.

Roxinha estava em seu ateliê com Deborah, elas pintavam um quadro com imagens de carnaval a quarta-feira de cinzas tinha sido há dois dias.  A artista interrompeu o trabalho para me apresentar seu ateliê, suas obras e contar a sua história, que começou com desenhos de cenas do cotidiano. Os trabalhos já tinham sua graça, mas ganharam força quando passou a escrever frases nas pinturas. As frases são engraçadas, escritas a partir da oralidade, e complementam os desenhos, trazendo ainda mais de Roxinha para as telas. Foi assim que sua história virou do avesso: os trabalhos chegaram à Ilha do Ferro e passaram a ganhar visibilidade.

Uma personagem que se repete no universo da artista é a Ozada, que aparece sempre de costas e em ação: de biquíni, ela tira o shorts, já nos joelhos, deixando à mostra o bumbum da moça. Em uma tela, a frase que acompanha a cena diz: “ela e ozada so por ter o bubú grande”.

Há pelo menos cinco anos a vida de Roxinha mudou por completo por causa da arte. “Mudou tudo, sabe por quê? Porque tinha gente que eu nem sonhava de conhecer, já conheço. E viajar também. É alegria de mais a mais, graças a Deus. Aí, acho que tudo mudou”, conta. Em 2023, por exemplo, foi ao Rio de Janeiro para sua primeira exposição individual, no Museu do Pontal. Em 2025, esteve no Recife para a abertura de sua mostra na CAIXA Cultural da cidade.

Hoje em dia, Roxinha parou de enviar seus trabalhos para compradores de fora: “Deixo toda semana dois, três para vender aqui. Se alguém quiser, se agradar, leva. Agora, eu tô trabalhando menos”.

Apesar de adorarem passar o tempo juntos, Roxinha e Binga trabalham em ateliês separados. Isso porque Binga faz esculturas em madeira, e o pó atrapalha a pintura da esposa. Das madeiras de Binga surgem bichos e frutas.

Pequenos cajus esculpidos servem de pretexto para que o casal apresente o extenso quintal da propriedade, onde plantam manga, seriguela, pinha, boldo. Saí de lá com uma sacola cheia de tudo o que estava maduro e com a promessa de voltar, mais velha e, com sorte, com dinheiro para levar um quadro de Roxinha para casa.

Ilha do Ferro

Roxinha não mora exatamente na Ilha do Ferro. Mas, de certa forma, sua história passa por ali. O pequeno povoado às margens do Rio São Francisco, no sertão de Alagoas, se tornou conhecido pela quantidade incomum de artistas. É ali que muitas dessas trajetórias se cruzam.

Quando o sol começa a dar uma trégua, cadeiras invadem as calçadas da Ilha do Ferro e os vizinhos esticam a conversa. O céu colorido do fim de tarde combina com as casas do povoado. 

Algumas fachadas trazem uma pequena placa que anuncia que ali mora um artista. Num misto de calor e receptividade, as portas ficam abertas. Da rua, é possível espiar o interior das casas. Na maioria delas, o ateliê ocupa o primeiro cômodo, às vezes, as obras dividem espaço com a televisão e o sofá.

Cerca de 500 pessoas moram ali e os moradores contam que mais de 100 são artistas. Os ateliês recebem visitas até tarde, até porque o calor durante o dia é intenso. Por mais que o objetivo seja vender as peças, os artistas não passam essa impressão. Ninguém tenta empurrar nada. O que conquista é a conversa: histórias de como começaram, com quem aprenderam, de onde vieram as ideias.

Um nome sempre aparece na boca dos artistas: o de seu Fernando. Nascido no povoado, filho de fabricante de tamancos, aprendeu ainda jovem a trabalhar com madeira. Nos anos 1980, enquanto produzia mesas e bancos para um bar local, já mostrava a linguagem que o tornaria conhecido, o uso das formas naturais de troncos, galhos e raízes de madeiras da caatinga, como o umbuzeiro e o mulungu.

Seu trabalho começou a circular para além do sertão quando o fotógrafo Celso Brandão e a museóloga Carmen Lúcia Dantas visitaram a Ilha do Ferro para um projeto que estavam desenvolvendo. Desde então, a dupla foi essencial para alavancar carreiras da Ilha. Assim como o próprio mestre Fernando, que inspirou e estimulou muitos dos artistas mais velhos do povoado.

O Macumba

Hoje, um outro nome também é reconhecido por motivar os artistas locais: André Dantas. Filho da museóloga Carmen Lúcia, André morou por anos em Nova York até decidir voltar para Alagoas e se estabelecer no povoado que sua mãe ajudou a popularizar. 

Agora, ele é dono de um bar central na Ilha do Ferro, O Macumba. Nele, moradores, artistas e visitantes se encontram nas noites. O lugar é desses bares cheios de cacarecos que os olhos demoram a identificar coisa por coisa. Só que nesse caso, os cacarecos são, em sua maioria, obras de artistas da Ilha. André é um dos maiores colecionadores de Roxinha. Foi ele quem a incentivou a começar a escrever frases nas pinturas. Não por acaso, foi um dos curadores da primeira exposição individual da artista, aquela no Rio de Janeiro. 

Uma das novas apostas de André é Gonçalves. No bar, é possível ver algumas das obras do artista: feitas com lápis de cor, ele desenha famosos. Pelé, Bruna Marquezine, Elvis, Rita Lee, o espectro de celebridades de Gonçalves é amplo. Roxinha já foi desenhada por ele e tem o retrato pendurado em casa. 

Foi André que me soprou um nome ainda pouco conhecido para além do povoado, o de Marquinhos. Caldeireiro, trabalhava fora da Ilha do Ferro, mas voltou para fazer uma balsa. Depois que o trabalho acabou, não quis ir embora. Na terra de artistas, começou a criar figuras originais. Uma cadeira em formato de aranha, Jesus Cristo com o corpo de pássaro. De onde vem a criatividade? “Rapaz, é porque na minha área de caldeireiro, a mente é muito aberta, entendeu? É uma área que o engenheiro pega uma planta, um projeto, me entrega e eu tenho que desenrolar. Então, é uma mente aberta. Tem coisas que o engenheiro erra, aí eu conserto”, explica. Ele entendeu rápido que, apesar do povoado estar cheio de artistas, quem se destaca é quem faz trabalhos originais. 

Petrônio, um nome já consolidado, é da mesma opinião: “Você cria algo, aí as pessoas começam a fazer também. Se você continuar naquilo, você vai se perder no caminho, você não vai vender tanto. Aí você tem que criar algo. Então, sempre procurei tá criando. Não tenho uma identidade, porque amanhã eu posso criar algo diferente”. 

Petrônio conheceu seu Fernando em 2001 e, incentivado por ele, começou a fazer ex-votos. Com o tempo, foi criando suas peças como o boneco de gravetos, que hoje são populares por toda a Ilha. De acordo com ele, o primeiro exemplar foi feito em 2004.

Petrônio teme que aconteça com a Ilha do Ferro o que aconteceu com Trancoso e Milagres “só tem riquinho mimado”, diz. “O capitalismo é totalmente destrutivo. O capitalismo não respeita nem pai, nem mãe. Ele só visa o lucro. Então, uma hora isso aqui vai virar um lugarzinho onde as pessoas vão continuar vindo, porque um dia foi bonitinho”. Por enquanto, ele acha que a situação está controlada: “Aqui, vocês podem rodar a hora que quiserem, duas, três horas da madrugada. E essa coisa de poder entrar na casa dos artistas igual a gente está fazendo com você também é um diferencial, né?”. E é. 

A casa de Petrônio e Célia fica um pouco afastada do centro e não possui as fachadas típicas do povoado. Para chegar, é preciso caminhar por uma estrada de terra. O humor e a receptividade do casal lembram Roxinha e Binga. Assim como eles, também possuem um quintal com frutas, que oferecem a quem chega. 

A vida parece boa demais para quem vê de fora e ele não desmente: “Aqui eu tiro meu dinheirinho, tenho meu sossego, recebo minhas visitas. Tá bom demais. Tenho minhas vaquinhas para tirar leite, quando eu tô estressado, que eu quero chamar palavrão com alguma coisa, eu vou lá e esculhambo uma vaquinha, que ela também não liga, não vai entender. Tem coisa melhor do que isso? Só dois disso”. 

Rio São Francisco 

A Ilha do Ferro talvez seja o ponto mais conhecido desse circuito de artistas às margens do Velho Chico. Mas ela não está sozinha. De outros povoados margeados pelo Rio também saem artistas que valem a pena visitar.

Muitos desses lugares são acessados de barco, conduzido por barqueiros locais que conhecem a região como ninguém. O famoso Dedé é um deles. Ele percorre povoados como Piranhas, Entremontes, Curralinho e Mata da Onça.

Neste último, moram Clemilton e seu irmão mais novo, Amilton. Clemilton há anos realiza pinturas e esculturas em madeira — vários de seus trabalhos estão espalhados pela Ilha do Ferro — enquanto Amilton começou a produzir mais recentemente. Clemilton explica a diferença entre os dois assim: “Eu pinto de frente, Amilton pinta de lado”. Isso porque os personagens do irmão aparecem sempre de perfil. As cenas cotidianas retratadas “de lado” têm feito sucesso e Amilton está em cartaz durante o mês de março na DOM Galeria, na Ilha do Ferro. 

Pelo caminho, é fácil encontrar histórias que não estavam no roteiro, às vezes indicadas por um barqueiro, às vezes descobertas por acaso. Qualquer guia para visitar a Ilha deveria servir apenas como um plano B. O plano A consiste em andar pelas ruas, entrar nas casas, conversar com as pessoas e, de conversa em conversa, decidir os próximos passos.

 

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