Museu Vassouras abre em diálogo com o território

Museu Vassouras abre em diálogo com o território

Mais recente instituição de arte aberta no Brasil, o Museu Vassouras, na cidade de mesmo nome, surgiu, em dezembro do ano passado, a partir de um olhar atento ao território e uma forte intenção de diálogo.

Ele foi criado pelo colecionador e empresário Ronaldo Cezar Coelho, que adquiriu há alguns anos o edifício do antigo Hospital Nossa Senhora da Conceição (Santa Casa da Misericórdia), erguido em 1848 como o primeiro hospital da cidade e hoje protegido como patrimônio histórico. Por décadas, o prédio se tornou um asilo, sendo tombado, em 1986.

Interditado em 2007, o prédio histórico foi adquirido e reformado com investimento de Cezar Coelho. Coube ao arquiteto Maurício Prochnik a readequação do edifício, que resgatou elementos originais e adaptou à estrutura demandas de um museu público e contemporâneo. Sua área total é de 3,3 mil m2, a maior parte dedicada à parte expositiva, localizada especialmente no térreo da instituição.

Apesar da significativa coleção do criador, que abarca desde obras do período colonial,  o museu não conta com um acervo. “Temos um plano de dois anos para a implantação, nosso foco está sendo a relação com o território, senão nossa maior preocupação seria com a o que envolve uma reserva técnica e preferimos começar com uma ação mais voltada ao diálogo com a comunidade”, explica Catarina Duncan, diretora artística do Museu Vassouras, em uma manhã nublada do chuvoso mês de fevereiro passado.

Para tanto, desde 2020, ela vem desenvolvendo o projeto de implementação do museu, tendo início com cerca de 50 entrevistas, com diversas pessoas da região. “Quando eu perguntava o que as pessoas achavam que seria o museu, as respostas costumavam ser um memorial dos barões do café”, relembra. De fato, Vassouras teve parte essencial no ciclo do café durante o período imperial, com fazendas onde trabalhavam cerca de 20 mil escravizados em 1850, quando a população da cidade era de cerca de 29 mil pessoas.

Folias, Vapor, Milagres

Assim, rompendo expectativas, o museu é um espaço dedicado à arte contemporânea, com uma programação voltada a duas vertentes: a produção local de mostras que dialoguem com a região – caso de Chegança, com curadoria de Marcelo Campos – e a circulação de exposições relevantes de outros locais. Além de Duncan, fazem parte da equipe de implantação Rosa Melo, na coordenação executiva, e Samantha Moreira e Francisca Caporali, ambas do JA.CA., na implementação pedagógica.

A mostra inaugural é dividida em três eixos, todos alocados no piso de acesso do museu, a partir dos temas: Folias; Vapor; e Milagres. Chegança conta com obras de 63 artistas, poucos, em verdade, do acervo de Ronaldo Cezar Coelho (todas identificadas como Coleção Instituto São Fernando), mas sem dúvida, são algumas das mais impressionantes da mostra, caso da icônica Figura Só (1930), de Tarsila do Amaral (1886 – 1973), que até recentemente esteve em comodato no MASP. É das pinturas mais relevantes de Tarsila, herdeira de cafeicultores paulistas, por sua composição um tanto surrealista e por suas grandes dimensões, 83 x 129 cm.
A pintura de Tarsila faz parte do eixo Milagres: Encantos e mistérios que correm com as águas, onde busca-se tratar da relação corpo, território e espiritualidade, tendo a instalação Puxada de rede, de Nádia Taquary, como o centro magnético da sala. Nela, um barco com mastro solto está cercado por uma rede com 60 peixes de metal, que reluzem com a entrada do sol na sala por uma clarabóia.

Já o eixo Vapor: entre trilhos, quintais e sonoridades faz referência ao trem, meio de comunicação essencial entre o Vale do Café e a Central do Brasil. A fotografia de Walter Firmo Carnaval, RJ, na qual se vê mulheres fantasiadas em um trem, procura relacionar como o trem está para além do transporte de mercadorias. Passando por esses trilhos, seria possível vislumbrar espaços coletivos, os quintais, onde se jogava o jongo, considerado o ancestral do samba. Nesses quintais também se plantavam as ervas, fruto de um conhecimento ancestral, voltado à cura do corpo e da alma, que são tematizadas em pinturas de André Vargas, na série Benzimentos.

Finalmente, no eixo Folias: Corpos em festa, memórias e resistências, busca-se uma aproximação com as festas populares como as Folias de Reis e a Congada, típicas da região. Entre as obras deste módulo estão pinturas de Dulce Martins e Pedro Neves, e a videoinstalação Pancadão, de Rafa Bqueer. Uma homenagem ainda é feita a Clementina de Jesus, que nasceu em Vassouras, na mesma região, filha de pai violeiro e capoeirista. Ela aprendeu com a família cantos e rezas que descendiam de quilombolas ligados às canções de trabalho nas fazendas.

Como se percebe, a mostra de fato nada tem a ver com os barões do café, mas com uma reflexão sobre marcas das produções populares em diversas facetas, que apontam de fato para uma instituição que abre as portas em busca de novas narrativas, de uma história potencial.

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