Uma loja sem as costumeiras barreiras de vitrines ou portas em uma rua movimentada do bairro paulista do Sumaré chama a atenção pelo contraste que forma entre o caos sonoro e visual de seu meio externo e o silencioso oásis imagético de seu ambiente interno. É como se esse lugar possuísse uma aura própria e respirasse no ritmo do click de cada uma das dezenas de fotografias ali exibidas e que cantam para todo transeunte um convite irresistível para empreender a travessia por seu território labiríntico construído com cópias fiéis de diversos territórios, cacos de nossa civilização e arquiteturas de mundos flutuantes.
Esse espaço, batizado de Cópia Fiel (uma homenagem ao filme homólogo do diretor iraniano Abbas Kiarostami, que levou à tela a discussão sobre a originalidade e a cópia de obras de arte) conduz cada visitante não somente à percepção poética sobre miudezas e grandezas de diferentes tempos, espaços e composições captadas e reproduzidas por seu fundador, Arnaldo Pappalardo (São Paulo, 1954). Inaugurado pós-pandemia (2021), mais do que um espaço expositivo de fotografias autorais, Cópia Fiel é uma verdadeira instalação arquitetada minuciosamente pelo próprio Pappalardo para evocar, experimentar e revelar a essência da reprodução das imagens que fotografou ao longo de quase cinco décadas de produções autorais. Hoje, o fotógrafo e artista visual paulistano faz questão de receber cada visitante nesse espaço armado com 80 imagens fotográficas que selecionou entre milhares de sua coleção. É ali onde se concretizam alguns de seus antigos desejos como a conexão do cotidiano da rua e seus transeuntes com o seu universo criativo, o acesso direto de qualquer pessoa ao artista e ao seu espaço dedicado à arte, assim como à aquisição democrática e facilitada de fotografias.
Formado em Arquitetura na Universidade de São Paulo (USP), Arnaldo Pappalardo já vinha desde seus 17 anos se dedicando à fotografia antes de ingressar na faculdade. Mas foi ali, quando passou a frequentar a biblioteca e o laboratório fotográfico, assim como a ter contato com os fotógrafos e professores Cristiano Mascaro e João Luiz Musa, que pode intensificar seu olhar e técnicas fotográficas. Ao mesmo tempo, frequentou aulas de desenho e pintura no estúdio do artista plástico Carlos Fajardo – técnicas que, desde então, vem utilizando em suas criações fotográficas. Por estar plenamente familiarizado e inserido no mundo registrado pela luz e das artes plásticas de forma mais ampla, ao se formar decidiu abdicar da arquitetura para se dedicar de olho e alma à fotografia. A partir de então, Pappalardo construiu uma sólida e reconhecida trajetória como fotógrafo na área comercial da publicidade. No entanto, não renunciou à sua produção fotográfica autoral desde então – o que lhe gerou questionamentos sobre a consciência social da pessoa artista, a democratização da arte e os enclaves de seu mercado, da fotografia digital e IA.
“Há aproximadamente uma década, meu trabalho comercial foi parando por vários motivos: primeiro porque começou toda a questão da fotografia digital e a maneira como as imagens passaram a ser manipuladas digitalmente e, mais recentemente, passamos a ter a IA para gerar imagens. Ou seja, a maneira como eu costumava trabalhar, a forma clássica de se fazer fotografia, praticamente parou. Por conta disso, me surgiu um questionamento durante a pandemia: Para onde eu vou a partir daqui? Tinha chegado o momento em que precisei pensar numa forma de comercializar pela primeira vez meu trabalho autoral como fotógrafo porque, até então, eu vivia exclusivamente da fotografia comercial. Aproveitando que eu tinha esse espaço (Cópia Fiel), comecei a pensá-lo totalmente conectado com a rua, quase que um prolongamento dela, sem porta; que as pessoas pudessem acessá-lo livremente sem o aspecto intimidatório que as galerias de arte costumam transmitir e onde pudesse vender minhas fotografias de uma maneira muito acessível, sem tiragem limitada. Afinal, a fotografia permite reproduções infinitas”, recorda o artista.
Aproveitando sua formação em arquitetura, Pappalardo desenhou e construiu para Cópia Fiel cada móvel onde exibe e conserva suas fotografias. Elas, por sua vez, recebem, em vez da assinatura do artista, o seu copyright: a garantia de que se trata de uma cópia fiel da imagem original recebida pelas mãos do próprio artista. “Eu não quero reforçar a ideia da exclusividade de uma obra de arte. Quero que ela materialize a ideia de acessibilidade e proximidade, assim como Walter Benjamin apontou que a fotografia destruiu o aspecto de aura mística e elitista da arte tradicional. E, justamente para romper novamente com o conceito intimidatório da aura, recebo cada pessoa pessoalmente nesse espaço. Pela minha longa trajetória, a partir das exposições autorais que fui realizando e também pelo meu trabalho de décadas como fotógrafo publicitário, muitas pessoas já ouviram falar do meu nome. E quando me veem aqui, acabam levando um susto porque tinham feito a associação do artista como alguém de difícil acesso. Com Cópia Fiel, todas as barreiras em torno da criação artística e do artista são colocadas abaixo”, afirma o fotógrafo.
Em seu ofício criativo, Pappalardo faz novamente uso da arquitetura (mais precisamente através de seu repertório formal como planos, luz e sombras, ângulos geométricos) para se perder e se entregar às veredas labirínticas da urbe, colhendo recortes de imagens que passam despercebidamente ao olhar comum: cacos de nosso mundo fragmentado. A publicidade, por sua vez, também lhe serviu de apoio para desenvolver sua técnica de fotografia de estúdio. “Nos anos 1980, por exemplo, coletava objetos na rua e levava tudo para o estúdio, onde montava uma produção, iluminava e fotografava – bem no estilo da pintura de natureza morta. A publicidade me ajudou nessa parte técnica”, recorda.
Observando cada imagem de Pappalardo, percebe-se que, embora nunca tenha atuado como arquiteto, a arquitetura tornou-se um importante método para sua criação fotográfica, impregnando e estruturando o seu olhar. A cidade, com seus labirintos e amplitudes, seres e fantasmagorias, concretudes e abstrações, é um elemento recorrente em boa parte do conjunto de sua obra, como no seu projeto Tensão Calma (com publicação pela extinta Editora Cosac Naify, 2008). Cada recorte da urbe captado pelo artista pulsa sua força existencial que compõe uma narrativa visual sobre a mitologia da cidade grande contemporânea e cuja fisiognomia não se deixa ser lida ou decifrada facilmente. As faces fragmentadas do espaço urbano mais enganam e desorientam do que revelam e esclarecem sua própria história e estórias que a compõem.
Ao contrário da clássica figura do flâneur benjaminiano, que se entrega propositalmente a suas deambulações pela urbe para contemplar à distância a multidão e consegue ainda ler a fisiognomia da cidade grande dos séculos 19 e 20 (quando suas fachadas, passagens e topografias ainda revelavam épocas e estórias passadas), Pappalardo toma o sentido inverso, tornando-se um “anti-flâneur” em sua essência ao se distanciar da figura daquele por não ser um mero observador contemplativo, que simplesmente caminha pela cidade contemporânea, decifrando-a sem muito esforço. Pelo contrário, o artista se joga de cabeça nesse território para recolher signos visuais, fragmentos de nossa civilização, através dos quais são evidenciadas nossa imprecisão e confusão para ler e decifrar suas cópias fiéis de nossa realidade fragmentada.
Recortes de arranha-céus, trabalhadores anônimos, pessoas e animais solitários, sombras e reflexos, asfaltos, vitrines, trilhas, letreiros, janelas e portas compõem um mosaico de cores, texturas, alturas e profundidades que nos sussurra aos olhos as múltiplas percepções de Pappalardo para refletir com imagens a invisibilidade da vida cotidiana e das relações sociais no meio urbano. “O meu trabalho é composto por muitas camadas e níveis de complexidade na maneira de relacionar as imagens. As fotografias em si são bastante diferentes. Para mim, o que interessa não é exatamente associá-las por uma proximidade estética, mas o que acontece quando duas imagens, aparentemente muito diferentes entre si, são aproximadas. O meu trabalho acontece nessa relação e conexão entre imagens diferentes. É interessante, por exemplo, quando percebo que imagens que fotografei há quarenta anos podem ser associadas a outras que fiz bem depois.
Um exemplo disso é o meu fotolivro Manual de Corte e Costura, selecionado para a Convocatória de Fotolivros da ZUM em 2022. Ele faz referência aos conhecidos manuais publicados décadas atrás, com as práticas de corte (aqui, presente na separação entre as imagens) e de costura (aqui, no fato das imagens terem sido colocadas juntas, como que costuradas, para a criação de uma narrativa entre elas). A associação entre as imagens desse trabalho não se dá pela semelhança formal e explícita, mas através de uma certa colisão entre elas – como que só a partir dessa colisão algo pudesse ser criado nos pensamentos de quem as vê. Por isso, Manual é um livro que requer muito de quem o folheia. A ideia de se ter uma formação infinita de associações me agrada: é possível descobrir novas narrativas em um eterno jogo a cada nova folheada. Esse mesmo princípio é também encontrado em outras duas de minhas produções fotográficas: Coleção de Cacos e Mundo Flutuante”, aponta o artista.
A série Coleção de Cacos pode ser considerada um caleidoscópio composto por 400 peças de imagens fotográficas feitas em pequeno formato com a mesma câmera digital ao longo dos últimos 10 anos e organizadas em um amplo mural com diversas colunas verticais e horizontais. A maioria dessas imagens são macrofotografias tiradas em ruas, parques, museus de diversas cidades (São Paulo, Paris, Praga, Istambul, Bolonha, entre outras) em que procurou “superfícies sensíveis a partir da observação atenta de espaços públicos: imagens em processo de apagamento, de destruição pela ação do tempo, rastros esquecidos que podem até já estarem fragmentados, como cacos de louça”, como indica Pappalardo.
Esses cacos coletados, dispostos uns ao lado dos outros, formam um imenso atlas imagético onde texturas, cores, proveniências e temporalidades se entrelaçam de forma única, tramando uma narrativa ímpar ao mesclar superfícies sensíveis com partes de grafites, detalhes de pinturas, relevos arqueológicos, detalhes celestes ou aquáticos. Cada um de seus recortes leva o observador a testar não somente seu próprio repertório imagético, como também sua imaginação ao se aproximar das ruínas de nossos tempos e procurar elaborar entre eles associações. Cada caco dessa coleção funciona como um signo único que compõe o multifacetado texto de toda cidade grande, confuso e difícil de ser lido e decifrável devido à enxurrada de informações visuais que a forma.
“A técnica da edição de Coleção de Cacos utiliza a cor como o elo entre suas peças, sempre considerando o fator sensível que cada imagem suscita em si mesma e um certo grau de ‘simpatia de vizinhança’ entre elas. É como se cada fotografia fosse uma célula de um grande tecido, formando uma colcha de retalhos que varia entre consonâncias e dissonâncias”, analisa Pappalardo. Essa variação instaura no observador a necessidade de se aproximar e se distanciar para imergir e emergir desse atlas imagético que atrai o observador para dentro de si. “É um zoom in e um zoom out. Quando você se aproxima, é como se entrasse na complexidade de cada imagem. E, quando se afasta, a imagem ampla que se forma é a de uma espécie de colcha de retalhos que, segundo meus cálculos, deve ter uns sessenta metros de comprimento”, complementa.
Para a construção desse projeto, o fotógrafo teve como referência a obra do historiador de arte alemão Aby Warburg (1866-1929): Atlas Mnemosyne, um dos trabalhos mais radicais e inacabados dos Estudos Culturais Europeus, já que seu criador faleceu antes de concluí-lo. Warburg criou uma série de grandes painéis de tecido preto sobre os quais fixava, sem molduras, hierarquias temáticas ou legendas fixas, fotografias de obras de arte, mapas astrológicos, selos, recortes de jornais, anúncios, imagens de revistas – testemunhas oculares de seu Zeitgeist. Esses fragmentos do espírito de sua época dispostos sobre grandes painéis eram reorganizados constantemente, justamente para que não caíssem no esquecimento e, devido a isso, adotou o título (Mnemosyne) em homenagem à deusa grega da Memória e mãe das Musas. Para o alemão, a humanidade carregava uma memória imagética coletiva (Bildgedächtnis) quase inconsciente e seu Atlas materializava uma cartografia dela, não seguindo uma ordem cronológica ou linear, mas sim uma relação associativa, visual e relacional, funcionando pela justaposição relacional e o choque entre imagens – tal como Pappalardo adota como método para sua Coleção de Cacos.
“Aqui, a articulação das imagens se dá pela cor: as três cores primárias, as três secundárias e as terciárias. Esse título surgiu durante a pandemia, quando comecei a pintar uns cacos de madeira que ia encontrando no meu estúdio. Não sei se algum dia vou expor esse trabalho de pintura, mas foi ele que gerou o título para esse grande painel de fotografias. Por pura curiosidade, pesquisei um dia no Google o termo ‘coleção de cacos’ e, para minha surpresa, descobri uma poesia de Carlos Drummond de Andrade com esse mesmo título e que poderia muito bem ser um texto para o meu trabalho porque o poema se refere a cacos de louça que vão quebrando e alguém, em algum dia, vai juntá-los. Esse ato de juntar cacos está conectado com o que estou tratando com a minha obra: produzindo um caos do bem e construtivo porque a ideia central é de que você possa operar alguma coisa dentro desse caos, construindo novos cosmos. Aqui penso no conceito de caosmose do psicanalista francês Félix Guattari: o caos como potência que cria a partir da desordem. Isso não tem nada a ver com o caos viciante e do mal provocado pelos algoritmos que nos manipulam e acabam não formando nada.
Considerando essa ideia de caos construtivo, gosto muito, por exemplo, da foto de uma lula grande ao lado de uma igreja barroca. Aparentemente, uma imagem não tem nada a ver com a outra, mas se observarmos com mais atenção os contornos de cada uma das imagens, percebemos que os detalhes de ambas dialogam sim entre si! Tenho um prazer muito grande quando descubro uma associação estranha como essa, porque algo novo se cria nesse processo caótico, que não consigo definir com palavras, somente com imagens”, relata Pappalardo.
Outro trabalho que vem instigando o olhar e a mente do artista nos últimos anos é a instalação Mundo Flutuante, cujo título foi emprestado da pintura e xilogravura tradicionais japonesas Ukiyo-e. Sua matriz surgiu em 1998 como uma produção-experimento: uma fotografia em grande formato (um cromo de 20 x 25 cm) colocada dentro de um pirex de cozinha com água e iluminada por baixo. Em seu interior, o artista colocou ainda peixinhos de aquário e fotografou esse protótipo para uma mostra sua em uma galeria.
“Passada a exposição, esse trabalho ficou na minha cabeça e, mais ou menos em 2019, decidi retomá-lo, mas com algumas modificações. Introduzi cores através de filtros de gelatina de cinema, uma espécie de folha colorida de celofane, na base da estrutura do aquário. Essas cores ficaram meio difusas, como se eu estivesse fazendo uma pintura sem jogar tinta na água. Além disso, decidi também usar letras decalcadas (inspiração de Mira Schendel), pequenas formas de coisas (tipo ícones impressos sobre plástico e cortados a laser), desenhos meus feitos com caneta permanente e plastificados (já com infiltração da água e em processo natural de modificação) e fotografias de sobras de um arquivo-morto com meus trabalhos comerciais para dar mais corpo a esse caldo desde a retomada desse projeto”, comenta Pappalardo.
Assim como um brinquedo, Mundo Flutuante leva o observador a se entregar à deriva nas traquinagens de um mundo analógico regido por experimentos e bromas que se formam e se desformam no tempo de ação de cada uma das bombinhas de água instalada nesse pequeno reservatório de água. Mas, deixando as brincadeiras à parte, para o criador, esse mundo trata de uma metalinguagem da cosmogonia da fotografia. “A interação da água com as imagens fotográficas, em parte, trata-se de uma metalinguagem, já que a fotografia dita analógica ou fotoquímica nasce na água, no momento da revelação dos filmes e das ampliações fotográficas em laboratório”, explica.
Embora esse trabalho e Coleção de Cacos sejam, por um lado, absolutamente diferentes, por outro, acabam se referindo à mesma coisa: à relação das imagens entre si em um processo constante de mudança. Se em Coleção de Cacos o observador forma associações das mais variadas entre as imagens em conformidade com sua própria cosmovisão, em Mundo Flutuante as imagens dispostas em um meio aquático fogem ao controle e da mirada do observador, estando a todo momento em movimento, formando e deformando novas associações regidas por seus próprios tempos, pulsões e mecanismos.
“Estou construindo o tempo todo e, como estou com 71 anos, a ideia da finitude começa a disparar. Não quero sair desse labirinto, pelo contrário. Tenho muito uma certeza de que é nessas derivas onde uma pessoa pode se reinventar. Para mim é muito importante considerar que onde o artista pode ser mais revolucionário é quando tenta quebrar alguma coisa na questão da linguagem. Esse é o tipo de artista que mais me interessa: aquele que vai me emocionar porque está quebrando algo dentro da própria maneira, de sua alfaiataria do fazer artístico”, complementa. Nesse sentido, Arnaldo Pappalardo não somente é uma referência em capturar, cortar e recortar ângulos e espaços de nosso mundo, mas de juntar com precisão os cacos de nossa realidade sem que suas fissuras possam ser notadas, a ponto de ficarem à deriva, flutuando em um mundo caosmótico, em um caos criativo, um caos do bem. ///
Renata Martins (1980) é educadora, crítica de arte e curadora independente natural de São Paulo. É mestre em Literatura Alemã pela USP e especialista em Curadoria de Arte pela Universidade das Artes de Berlin. Foi residente do programa Vila Sul do Instituto Goethe de Salvador (2020-2022), onde concebeu e organizou o Catálogo Arte Mais – Panorama de Artistas Transvestigeneres no Brasil @catalogoartemais.
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