Vilma Eid transitou desde sempre à procura do genuíno, do inédito. Algo que acaba trazendo nas suas escolhas uma autenticidade que nos captura.
A Estação acompanha há muito tempo as inúmeras coleções nacionais de artistas, pacientes psiquiátricos, que circulam em âmbito internacional.
O Museu de Imagens do Inconsciente, nascido em 1952, no Rio de Janeiro, possui hoje um acervo de mais de 350 mil obras, o maior do mundo em seu gênero. Lá estão artistas como Fernando Diniz, Adelina Gomes, entre outros. Em 2003, o IPHAN tombou, por unanimidade de seus conselheiros, um conjunto de 128 mil obras pertencentes ao Museu.
Recentemente, um dos seus colaboradores mais importantes, o museólogo e pesquisador Eurípides Gomez da Cruz Junior, que trabalhou no museu desde os anos 1970, convivendo diretamente com a sua fundadora Nise da Silveira, publicou uma obra de referência sobre a história do acervo, o livro “Do asilo ao museu – Nise da Silveira e as coleções da loucura”, pela editora Hólos Consultoria e Assessoria, 2024.
Clovis Aparecido dos Santos, nascido em Avaré, São Paulo, em 1960, é conhecido como um andarilho. A partir dos anos 2000, o artista passou a frequentar o Ateliê Gaia, espaço gerido de modo coletivo por artistas usuários da rede de saúde mental da capital carioca e acompanhados pela equipe do Museu Bispo do Rosário. Ele usa uma grande variedade de materiais: garrafas PET, cavaletes, tecidos e papel machê, usado tanto para dar corpo às esculturas como para juntar componentes.
O Museu de Arte Osório Cesar, localizado em franco da Rocha, no Estado de São Paulo, foi influenciado pelo médico e historiador de arte alemão, Hans Prinzhorn, que em 1922 publicou seu livro mais importante: A arte dos doentes mentais: Uma contribuição à Psicologia e à Psicopatologia de Configuração formal, com ilustrações de obras dos pacientes. A posteriori, com o artista Flávio de Carvalho, organizou a primeira exposição brasileira de obras de pacientes psiquiátricos. Em 1974, várias obras foram doadas ao Museu de Arte de São Paulo (MASP). Uma autora de grande destaque, Aurora Cursino dos Santos, só recentemente teve sua obra amplamente divulgada.
O crítico Mario Pedrosa chamou de “flores do abismo” estas obras que saíram dos asilos no começo do século XX e exerceram forte influência nos movimentos artísticos emergentes na época.
Aurelino dos Santos nasceu em Salvador, na Bahia, em 1942, e faleceu em 2026. Ele era descrito como alguém que perambulava pelas ruas de Ondina, sem camisa, de bermuda e recolhendo objetos. Costumava “cobrir” paisagens totêmicas e urbanas com respingos de tinta branca e preta misturada com areia, criando uma textura que se assemelha à superfície da pedra.
“Ranchinho”, Sebastião Theodoro Paulino da Silva, nasceu em Oscar Bressane, em SP, em 1923, e faleceu em Assis, em 2003. Não foi alfabetizado e tinha dificuldades de fala e audição. Começou a pintar na década de 1970 e produziu perto de 3 mil obras, com energia expressiva e uma pintura de vigor material.
Em Uma língua nova, uma pesquisa sobre a construção do acervo da Galeria Estação desde começos dos anos 2000, levou o curador convidado José Augusto Ribeiro a pesquisar e conviver com obras de pacientes psiquiátricos, Ranchinho, Aurelino dos Santos, Joseph Rolfe, Clovis Aparecido dos Santos e ainda com trabalhos de Arnold Schmidt, um artista austríaco, desconhecido no Brasil.
“Decidimos reunir esses trabalhos pela importância que tem no campo da arte e da psiquiatria, podendo assim diminuir preconceitos em relação à doença mental, em relação às pessoas com questões cognitivas”, comenta José Augusto.
Esther Morgannah, nascida no Rio de Janeiro em 1965 e frequentadora do MII, está na instituição há cerca de dois anos. Ela trabalha com cerâmicas policromadas inspiradas em peixes abissais da Fossa das Marianas, o ponto mais profundo da Terra; outras remetem a deuses astecas, e uma terceira traz a figura de seres marinhos. A artista cursa atualmente Museologia e participa do movimento da Luta Antimanicomial.
Josef Hofer começou a produzir em ateliê terapêutico em 1977 e permanece como residente, desde 1992, em uma organização social voltada a pessoas com deficiências físicas e intelectuais — a Lebenshilfe, na Áustria. Surdo, quase mudo e com restrições de mobilidade, sobreviveu ao III Reich. A partir de 2000, passou a desenhar — e a desenhar-se — diante de um espelho de um metro quadrado, colocado no chão de seu quarto. A partir de experiências de autoconsciência e de relação com a própria sexualidade, realizou vários trabalhos eróticos nos quais multiplica a própria imagem, sempre emoldurada por faixas vermelhas, amarelas e laranja, verticais, horizontais e diagonais.
“Esses trabalhos chamam atenção pelas características de realização e pela singularidade dos processos que envolvem. São todos artistas autodidatas, artistas que não têm treinamento técnico e que, por isso mesmo, acabaram desenvolvendo seu próprio método de trabalho, a linguagem que cada atividade exercia, que cada atividade pedia.”
As obras trazem mundos interiores e visões do mundo muito variadas, trata-se de artistas que produziram seus trabalhos em condições diversas. Há artistas com diagnóstico, artistas que nunca receberam um tratamento, que produziram os seus trabalhos de maneira, às vezes, isolada e com restrições econômicas e outros artistas que trabalharam com apoio de instituições, ou com o apoio de profissionais especializados.
Arnold Schmidt, nascido na Áustria, em 1959, é artista residente na House of Artists, do vilarejo Maria Gugging, na Áustria, desde 1986. Sua produção constitui-se de variações de um mesmo esquema de imagem, produzido com gestos circulares que sobrepõem tinta acrílica, guache, grafite e papel oleoso. O trabalho lida com o abstracionismo.
Aqui não é o distúrbio ou a deficiência que torna a arte relevante. Não é a doença que explica o que se vê nos trabalhos, assim como o exercício da arte não converte enfermidade em elemento estético. Explica o curador, “a abordagem da curadoria quer evitar a romantização da condição clínica do autor como gerador criativo, tanto quanto da atividade artística como redenção temporária de eventuais sofrimentos.”
A exposição evita apresentar os trabalhos como produto do mito do “gênio louco”; a ideia é chamar atenção para os diferentes processos e particularidades de cada obra.
Enio Sérgio, nascido em São João del-Rei (MG), em 1962, concebe criaturas híbridas e suas figuras provocam humor. Desde 1990, o artista frequenta o Museu de Imagens do Inconsciente (MII), que passou a colecionar suas obras. Sua produção é variada e inclui desenhos de inclinação surrealista e seres imaginários, meio humanos, meio animais, representados em cores intensas e padrões geométricos.
“A ideia da exposição foi afirmar essa heterogeneidade, um pouco para contornar aquelas perspectivas totalizantes: ‘trabalhos de pessoas com questões mentais são assim’, ‘esses trabalhos significam isso’, ‘esses trabalhos significam aquilo’… Enfim, tinha vontade demostrar uma variedade grande de trabalhos — desenhos, pinturas, esculturas — e, principalmente, chamar a atenção para esse fato de que o autodidatismo ali significa a invenção de uma linguagem. Sem treinamento técnico, esses caras, cada um deles, criaram o seu próprio modo de fazer.
Tem uma invenção aí.”, afirma Ribeiro.
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