Inhotim de cima e por dentro

Inhotim de cima e por dentro

Caminhar pelo Inhotim é uma caça ao tesouro. Se os mapas físicos estão cada vez mais raros, o museu a céu aberto de Brumadinho é um dos espaços em que os visitantes ainda se agarram a eles com as duas mãos, traçam rotas com o dedo indicador, espremem os olhos, perguntam por direção. Ainda assim, é difícil ter dimensão do tamanho do parque e compreender a sua geografia.

Para a exposição A Céu Aberto, que inaugura em outubro como parte das celebrações dos 20 anos do Inhotim, uma grande maquete de 15 m² vai ajudar a vislumbrar a magnitude da instituição. Afinal, são 144 hectares, com lagos, caminhos tortuosos, galerias isoladas entre morros e jardins. Visto por satélite, o Inhotim é um mar verde, cujos caminhos e edificações se perdem em meio à vegetação. O designer e artista mineiro Daniel Herthel foi o responsável por produzir essa estrutura a partir de um levantamento feito por drone. A maquete é modular, dividida em 30 partes construídas por camadas sobrepostas de MDF e compensado que reproduzem a topografia do parque. Tudo o que é mata e jardim está plano, diferenciado por cor e textura. As edificações e obras de arte saltam para o tridimensional. “A gente partiu de um pressuposto quase científico de tentar ver esse todo”, diz o curador da mostra Lucas Menezes, “mas que passou por um olhar estético, é um design que está em harmonia com o que a gente produz. Não é uma maquete de empreendimento imobiliário.”

Pela primeira vez, será possível ver como os lagos são conectados por diferentes nascentes, como o jardim paisagístico se entrelaça com o território natural e como a instituição, que era dez vezes menor quando abriu ao público, foi se expandindo a partir das obras de arte e dos jardins. “A gente não começou com um espaço gigantesco de 140 hectares”, lembra o curador. “Eram cinco galerias, um só jardim, a mata ao redor. Foi com o passar dos anos que isso foi se desenvolvendo como organismo vivo.”

A maquete estará bem no meio da antiga biblioteca do centro de educação, um espaço construído em 2009 que faz lembrar um aquário com suas paredes de vidro. “A gente criou uma expografia, uma cenografia que dialoga muito com esse dentro e fora. Isso permite dar ao visitante um papel ativo, quase como se ele estivesse procurando ou encontrando alguma coisa”, conta.

As obras

A exposição recorre majoritariamente ao acervo do Inhotim, com cerca de 30 obras, várias delas nunca mostradas ao público. Com exceção da maquete, não há comissionamentos. A mostra, que conta com a assistência curatorial de Varusa, se organiza em três eixos: cultivar, enraizar e regenerar. “Quando a gente foi conceber a exposição, fazia muito sentido recorrer a três palavras, três conceitos que pudessem ser lidos pelas três vocações que formam a instituição”, explica Menezes. “Uma instituição voltada para a arte contemporânea, para a natureza e para a educação em uma relação com o território”.

A Céu Aberto é uma exposição que conta os bastidores do museu: “os processos de imaginação, de sonho, de vontade, de desejo, que tornaram o Inhotim possível”, conta o curador. Essa trajetória passa pela figura do fundador, Bernardo Paz, que concebeu esse espaço a partir de uma propriedade privada, mas se amplia e se soma às vontades e desejos também dos artistas e dos trabalhadores.

Abdias Nacimento Anjo (1968) Acervo Instituto Inhotim
Abdias Nacimento Anjo (1968) Acervo Instituto Inhotim

Duas pinturas de Abdias Nascimento ocupam lugar de destaque. Menezes as descreve como marco de uma mudança institucional: em 2021, o Inhotim iniciou o programa expositivo Abdias Nascimento e o Museu de Arte Negra que transformou as políticas de aquisição e comissionamento. “Foi uma exposição que virou um programa, que gerou outras dez exposições, mas que também influenciou o que a gente guardou no acervo.” Nesse período, entraram obras de Rosana Paulino, Antonio Obá, que também integram a mostra dos 20 anos, e uma série de outros artistas negros, brasileiros e estrangeiros.

Outra dupla de trabalhos faz parte da memória da instituição: são duas fotografias de Vik Muniz da série Sarzedo Drawings, de 2002, um dos primeiros comissionamentos feitos por Bernardo Paz, fundador do Inhotim. Paz levou Muniz para conhecer a propriedade, a sua coleção e uma mina que tinha na cidade vizinha de Sarzedo. As fotografias alternam imagens feitas de helicóptero com cenas construídas em escala de miniatura e capturam a transição do empresário da mineração para colecionador de arte. “O Bernardo é esse empresário da mineração que fez carreira e fortuna nesse campo. E um dos primeiros projetos artísticos que ele comissiona é um feito nas próprias minas dele”, analisa Menezes. “Vik Muniz é um artista que estava super em voga naquele momento, com projeção internacional, um brasileiro de muito destaque, mas que ao mesmo tempo testemunhou a relação do território com a mineração.”

A mostra inclui ainda obras de Rosângela Rennó, uma delas que nunca foi exibida no Inhotim, embora esteja no acervo há mais de 20 anos, Nelson Leirner, Lenora de Barros, Alexandre da Cunha, um conjunto importante da mineira Maria Lira Marques, Rosana Paulino e Mauro Restiffe, este último a partir de uma seleção que apresentou no Inhotim em 2008.

Além das obras, o que se apresenta são croquis, projetos, registros de construção e fotografias de processo. A seleção passa por 20 pontos que ajudam a contar a história do Inhotim. O visitante pode ver como o Magic Square, de Hélio Oiticica, foi construído e entender onde ele está no território, em que momento surgiu e o que veio antes e depois dele.

Acervo Inhotim

Vitrines, mapotecas e trainéis — aquele mobiliário clássico de reserva técnica de museus onde se armazenam obras em camadas — compõem o cenário que torna visível o que normalmente fica nos bastidores. Menezes entende esses objetos como “testemunhas do processo de criação e desenvolvimento da instituição”. Uma obra adquirida em 2006, quando o Inhotim abre ao público, ganha outro significado ao ser exibida 20 anos depois, num ecossistema que se transformou radicalmente desde então.

O Inhotim como exposição

A exposição se expande para além das paredes. Vinte pontos abordados na mostra correspondem a vinte locais físicos no parque. Em parceria com a Rádio Novelo, o Inhotim produziu um audioguia, “uma espécie de podcast caminhável”, explica o curador, que permite ao visitante experimentar a exposição percorrendo o próprio acervo a céu aberto. Em cada ponto, uma sinalização indica o vínculo com a mostra e um QR Code dá acesso ao áudio. A ideia é que a visita funcione como documento, para que “o próprio ato de caminhar no Inhotim seja um repertório”.

A proposta se estende também à memória educativa. A primeira equipe de educação do Inhotim foi estruturada antes mesmo da abertura ao público. Programas como Laboratório Inhotim, Descentralizando o Acesso (voltado ao público escolar da região) e Jovens Agentes Ambientais atravessam quase toda a vida da instituição. “É interessante ver que tem pessoas que participam como alunos desses programas e depois se tornam funcionários”, observa Menezes. A mostra retrata um pouco dessa arqueologia institucional, localizando quem são as pessoas e os projetos que estão na origem.

O território

Um dos episódios recuperados pela exposição envolve o painel de John Ahearn e Rigoberto Torres. Os artistas trabalham juntos desde 1979 com projetos de esculturas naturalistas criadas a partir da relação e do envolvimento com membros de grupos comunitários. Em Brumadinho, a dupla se instalou na praça da rodoviária e ali ficaram por meses, produzindo, conversando, fazendo moldes de gesso a partir de pessoas reais. Em um dos murais, eles representam a estação rodoviária, que também era um espaço de convívio, com direito a música, dança, forró. “As pessoas lembram disso”, diz Menezes. “Muitas delas trabalham aqui no Inhotim ainda, ou são figuras muito conhecidas na cidade. Quando a gente volta para esses projetos, isso cria uma comoção.”

John Ahearn & Rigoberto Torres, Rodoviária de Brumadinho, 2005. Foto: Eduardo Eckenfels

A história do Inhotim, como o curador faz questão de lembrar, foi iniciada por Bernardo Paz há mais de 20 anos, mas passou a ser construída por um conjunto diverso de profissionais. A coleção se constituiu formalmente a partir da doação de Paz em 2022 e a exposição mostra como o que o Inhotim guarda em sua reserva técnica também testemunha as transformações da instituição. “A gente quis mostrar que tem muito trabalho, tem muitas pessoas envolvidas. A gente quis mostrar essas etapas de como é que uma ideia surge, como é que ela se materializa nesses primeiros esboços, ensaios, croquis, e viram projetos de construção e se tornam coisas partilhadas”, conclui.

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