Romildo Rocha: para gravar na memória

Romildo Rocha: para gravar na memória

Sob o céu estrelado, um homem chora ajoelhado aos pés de uma mulher. Ela, por sua vez, encara o espectador com um sorriso no canto da boca. A pintura se chama A fazedora de bestas e o autor é o maranhense Romildo Rocha. Enquanto a pintava, em 2025, o artista ouvia A Hora da Estrela, de Clarice Lispector, no formato de audiolivro.

Romildo não sabe dizer se a escuta influenciou a pintura, mas sabe que quadro e livro ficaram grudados na memória, já que, para ele, compartilharam o mesmo tempo e espaço. A mulher da tela não se parece em nada com a personagem de Macabéa, mas, logo no início do romance, o narrador de Clarice avisa que aquela é “uma história com começo, meio e gran finale seguido de silêncio e chuva caindo”. Essa definição, sim, se assemelha às narrativas que Romildo Rocha retrata.

Romildo Rocha, A fazedora de bestas, 2025

Romildo nasceu em casa em 1989, na periferia de São Luís. A avó, que trabalhava como parteira no interior, veio ajudar. “Mamãe até fala assim: ‘a mulherada hoje paga para fazer parto humanizado, mas na época não tinha nem água’”, conta. E ele faz questão de avisar: essa não é uma história triste, não.

Cresceu brincando na rua, mas quando a mãe precisava sair de casa, deixava ele e a irmã com papéis e canetas. Desenhava como qualquer outra criança, mas o hábito não foi abandonado. Na adolescência, pelo contrário, virou compulsão. Sentia tanto ímpeto para desenhar que acordava de madrugada “para ficar riscando”. Os dedos chegavam a ficar enrijecidos, ele conta. Preencheu dezenas de cadernos e qualquer superfície que estivesse por perto. Em uma das provas da escola, tirou 1, mas a professora escreveu “lindo desenho” no verso, porque a folha não saía impune aos seus traços. A mãe guarda essa prova até hoje.

Filho de caminhoneiro, Romildo gostava de viajar junto do pai. Adorava estar dentro do caminhão, onde também aprendeu a dirigir. As estradas, até hoje, são inspirações. Ele conta que, diferente do que viu em São Paulo, nas estradas do interior do Maranhão acontece muita coisa: “tem mulher vendendo lanche, tem um cara jogando não sei o quê, tem um bêbado passando, tem cachorro”. Criança, queria ser caminhoneiro quando crescesse. Um pouco depois, colocou na cabeça que seria militar, uma herança dos anos no bombeiro mirim, projeto socioeducativo que o marcou. Esse desejo sobreviveu por mais tempo do que uma fantasia de criança e até chegou a fazer os testes, mas não foi aprovado. “Eu tinha dificuldade com ensino”, diz. Apesar disso, passou no vestibular da Universidade Federal do Maranhão. Optou por Desenho Industrial porque tinha “desenho” no nome. Fora isso, não sabia o que o esperava.

O curso era muito técnico, mas Romildo tinha talento. Os amigos diziam que ele era artista, mas ele rejeitava o título: “Eu detestava ser confundido com artista. Eu falava: ‘não, eu sou designer’”. Como designer, ele explica, trabalhava com metodologia, com técnica, precisava bater ponto, tinha prazo para “subir o arquivo”.

Mais tarde, abriu um escritório com colegas. Durante cinco anos, fez identidade visual e animação. Depois, migrou para a ilustração autoral e aí o trabalho começou a circular. Fez louças para a Tok&Stok, campanha para o Boticário, desenho para cerveja e eventos juninos. “A galera me procurava pelo meu trabalho. Chegava muito e-mail”, lembra.

Paralelo ao design, seus murais também fizeram sucesso. Grandes pinturas em preto e branco, com algum elemento em vermelho, que era o máximo de cor que trazia, uma herança de um curso de xilogravura com o professor Airton Marinho, no centro histórico de São Luís. A linguagem visual vinha da gravura nordestina e a narrativa, das suas vivências, do cotidiano do Maranhão. “Aqui a gente é muito enxertado pela cultura. Todo canto que você chega tem um tambor, tem um boi, tem um reggae. É muito natural.”

Em 2020, mudou-se para São Paulo para dar um passo na carreira. A adaptação não foi fácil. “Eu ligava pra minha irmã chorando que nem cachorro novo: ‘Eu não aguento essa cidade, não dá. O povo não dá nem bom dia’”. Em três meses, a pandemia do COVID-19 começou e ele voltou para o Maranhão na primeira oportunidade.

Na época, perdeu um colega, um ilustrador que “estourava” no circuito. Pouco tempo depois da morte, viu o trabalho do amigo desaparecer da internet. “Eu fiquei pensando: esse trabalho gráfico, essa coisa das ilustrações que a gente atende o mercado é muito interessante, mas daqui a pouco acabou, não existe mais nada”. Pensou que sendo artista, o trabalho conseguiria permanecer por mais tempo.

Decidiu parar de pintar na rua e começou a pintar em casa com tinta acrílica e, depois, tinta a óleo, que lhe custou muito. “Apanhei demais para pintar a óleo. Difícil, difícil, difícil.” A linguagem da xilogravura ainda aparecia nos primeiros trabalhos sobre tela, mas foi saindo aos poucos, de forma natural. O que não saiu foi a narrativa. “O que mais importa para mim, mais do que a estética, é a narrativa. Eu nunca abandonei a minha.”

A narrativa de Romildo é feita de casais, festas, acontecimentos cotidianos e os títulos das obras fazem parte da história. Em Mandado (2024), um homem pendura calcinhas no varal enquanto a mulher, nua, fuma distraída no quintal. Em Pensando em macho (2024), uma mulher se toca sobre uma rede enquanto três homens diferentes lhe ocupam o pensamento. As mulheres que Romildo pinta não se dobram: têm desejo e fazem os homens de “bestas”.

O repertório se expande também para representações de ternura. Em Coçando as costas (2024), um casal nu divide a cama e a cena se resume a um só gesto: uma mulher coça as costas de um homem. Em Meu Guri (2026), uma mulher cobre uma criança na cama, como se a estivesse colocando para dormir. O “gran finale seguido de silêncio” anunciado por Clarice em A Hora da Estrela aparece em Extasiados (2026), que apresenta um casal exausto do que parece ter sido uma relação sexual. Nua, a mulher está deitada de barriga para cima sobre a cama, enquanto o homem aparece derramado para fora dela, com metade do corpo no chão e apenas as pernas sobre o colchão.

 

Romildo Rocha, Extasiados (2026). Foto: Ding Musa

Romildo conta que quando as pessoas o conhecem depois de ter visto suas obras, elas se assustam ao ver que ele tem apenas 36 anos. “Tem gente que acha que [meu trabalho] é coisa de velho. Não é”, diz. O problema, na leitura dele, é que o circuito associa figuração, narrativa e referências populares a uma produção anacrônica. “Eu tenho muitos amigos em São Paulo que são pintores. Mas eu acho o trabalho meio massificado. O fato de eu fazer figurativo na era do contemporâneo.” Ele faz uma pausa e então completa: “Eu gosto de fazer as coisas que eu vivo. Eu gosto de fazer os meus bonequinhos. Eu acho que todo mundo quer ir para um lugar mais diferentão e acaba esquecendo esse outro ponto, que eu pretendo não sair”.

Uma leitura que o incomoda é a de que seu trabalho é engraçado. Lembra de uma vez, em que estava em uma feira de arte, e uma pessoa se aproximou para dizer que tinha dado muita risada ao ver suas obras. “Me incomodou. Tem muita coisa que eu pinto que não é engraçado, eu estou só vivendo.” Há humor e graça nas telas, ele diz, mas quando o humor é tudo o que as pessoas veem, alguma coisa se perde.

Hoje, Romildo mora no mesmo bairro onde cresceu, num apartamento popular, perto da mãe. O espaço precisa estar arejado, iluminado e limpo para que consiga trabalhar. Pinta de dia, ouve música, reggae, ou podcast. “Tu sabia que eu tenho muita dificuldade de ler, mas eu não tenho dificuldade de ouvir? Eu fico horas a fio ouvindo podcast de história do Brasil”. Foi assim que descobriu a possibilidade de ouvir livros. “Audiolivro vale como uma leitura?” questiona. “Mas aí eu não pratico a leitura visual, né, mas eu sei da história. E não era um robô falando, era uma mulher lendo. Achei incrível, ela entonava tudinho”, conta sobre a experiência de ouvir A Hora da Estrela com a narração da atriz Mel Lisboa.

Faixa marrom do judô, esporte que começou a praticar há cerca de 12 anos, hoje ele dá aulas para crianças e jovens na zona rural. Inclusive, os golpes ele estuda desenhando, que é o único jeito de fixar os nomes japoneses na cabeça. “Só aprendo se tiver riscando assim. Porque eu gravo na memória. Sempre usei essa coisa da ilustração e do desenho como uma ferramenta para o aprendizado”. Em Deus Perdoa (2025), um homem e uma mulher estão em uma briga corporal no chão, enquanto várias pessoas se aglomeram em volta deles. Em sua conta do Instagram, ele escreveu na legenda da obra: “JujiGatame ou ArmLock, após encaixado, ajustar a mão de modo que o polegar do adversário fique apontado para cima. Segurar firme! Depois é só levantar o quadril. Atenção: Parar só quando ouvir um estralado forte vindo do braço do meliante!!!”. Os cadernos de judô convivem com os cadernos de rascunho em que aparecem mães d’água, sereias, uma figura com três olhos: “Eu desenho de tudo, não me privo”.

Romildo Rocha, A resposta do santo, 2025. Foto: Ding Musa.

Romildo conta que, apesar da falta de perspectiva, sua mãe sempre acreditou na educação. “Mamãe sempre viu que a educação era fundamental. Então ela queria que eu passasse na universidade. Na época, com o Lula, abriram vagas e aí a gente teve acesso”. Apesar de morar atrás da Universidade, ele só entrava ali para colocar crédito na sua carteirinha de estudante do transporte público. Nunca imaginou que um dia estudaria naquele lugar. “Mas mamãe sempre acreditou. Ela era muito rigorosa comigo, de bater, dava pisa”. Romildo reprovou no primeiro ano do Ensino Médio e, por conta disso e da sua dificuldade na escola, ele diz que o “povo não achava que eu ia dar em muita coisa”. Quando passou no vestibular, conta que foi uma surpresa para todo mundo. Na sua família, não tinham referências. “Meus primos são mecânicos de caminhão, eletricistas, lidam com animal no interior. Eu queria trabalhar com caminhão, ser militar. Hoje, meu irmão [de 14 anos] pode ser o que ele quiser. Ele tem referência, ele pode se espelhar.”

Para o futuro, Romildo deseja participar de residências artísticas e realizar uma exposição individual. Enxerga a arte como um meio para ir para a zona rural, ter seu ateliê, mas principalmente, criar animais. “Não tenho essa vontade de viver só pintando, não. Se chegar um momento que eu vou estar cansado, eu vou lá para o sítio, vou ver os bichos, vou ficar por lá mesmo”. Mas por enquanto: “Tô curtindo o processo e eu acho que isso é bom também”.

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